quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Mercado de Cinema · Outra aventura de ´Cine Holliúdy´

Em cartaz no Sudeste, longa de Halder Gomes se sai melhor nas salas do circuito de cinemas de arte da região

A expectativa está desfeita. "Cine Holliudy", de Halder Gomes, é uma obra puramente regional. Ao estrear na última sexta-feira na região Sudeste - compreendendo Belo Horizonte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo - em 40 salas, foi visto por 11.646 espectadores. A média é de 263 espectadores por sala.

A expectativa dos produtores é de que o filme feche a temporada com 500 mil espectadores

Com esses números da região sudeste, acrescidos aos obtidos na região Centro-Oeste (Brasília, Goiânia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins), em um total superior a 22 mil ingressos vendidos nas quatro cidades, "Cine Holliúdy" ganha esse rótulo, conforme o diretor de programação da Downtown Filmes, Aguinaldo Silva, que nos revelou os números obtidos pelo filme nas diversas regiões do País. "Cine Holliudy´ se confirma como uma produção de caráter regional e isso é positivo", afirma.

Realmente, a classificação não é nada pejorativa para o filme de Halder Gomes. Ao contrário, trata-se de "algo novo" em termos de cinema brasileiro, pois acaba de ser aplicado, também, a outra produção lançada recentemente, "O Tempo e o Vento", de Jaime Monjardim, rodada no Rio Grande do Sul. Esse "cinema regional" é extremamente salutar para a indústria da sétima arte no Brasil. E, como dado novo, pode estar surgindo, com o sucesso desses dois filmes em suas regiões, um novo tipo de produção.

Segundo Aguinaldo, "os números obtidos por ´Cine Holliúdy´ não podem ser considerados decepcionantes, pois não tínhamos uma estimativa fechada, embora o mercado tivesse uma expectativa para um público bem maior". Entrevistado via e-mail, Halder Gomes revela que essa projeção era de 50 mil ingressos iniciais.

Bruno Wainer, fundador da Downfilmes, distribuidora de "Cine Holliúdy", em entrevista também por e-mail, revela que o lançamento no Sudeste era, para ele, "uma incógnita total". "Eu não tinha nenhuma expectativa e sabia que ia ser dureza. Investimos o necessário para o filme ter visibilidade, mas sabíamos das dificuldades que iríamos enfrentar", explica.



Recorde a ser superado

No penúltimo final de semana, o site Filme B mostrava "Cine Holliudy", então com apenas duas cópias, praticamente fora do ranking dos filmes em cartaz entre as 20 melhores bilheterias, conforme a edição 834. E nesta semana, com a estreia no Sudeste com mais 40 cópias, obteve uma escalada surpreendente, alcançando um pico de 1.098% em termos de presença de público, ocupando, agora, o oitavo lugar no ranking.

"Cine Holliudy" fez um sucesso estrondoso em Fortaleza, e, embora bem menos no interior do Estado, já contabiliza um público superior a 289 mil pessoas. Nas regiões Norte e Nordeste, a comédia de Halder Gomes funciona bem, tendo sido conferido por mais de 25 mil na primeira e mais de 81 mil espectadores na segunda. Somando-se as três plateias, o público chega perto dos 400 mil espectadores. O público atualizado é de 463.128 espectadores. Números extraordinários para uma produção que custou apenas R$ 1,2 milhão. É uma marca que, certamente, levará algum tempo a ser superada, em termos de público, por outra produção da região.

Outra constatação é que "Cine Holliúdy" mudou de perfil a partir da estreia no Sudeste. Enquanto no Nordeste era caracterizado como obra de massas, um blockbuster, agora ganha o status de uma obra cult. Isso porque passou a ter uma melhor acolhida nas salas de filmes de arte.

"Sim, foi uma interessante surpresa!", exalta Halder Gomes. "Na verdade, a Downtown Filmes já havia me alertado para esta possibilidade. Ficamos muito imprensados com os mega lançamentos de ´Thor´ e ´Jogos Vorazes´ (com 1 mil salas cada), e acabamos tendo que optar por salas do circuito cult. Para minha surpresa, este público tem lotado as sessões, embora sempre soubesse que o filme poderia agradar até intelectuais com suas mensagens subliminares", diz.

Bruno Wainer teve confirmada a suspeita de que o longa-metragem funcionaria melhor nas salas especiais do que nos grandes complexos comerciais. "O filme funcionou no circuito de salas de arte. No Pompeia, em São Paulo, vendeu 1,6 mil ingressos no fim de semana e também vendeu um número razoável de ingressos no Cine Gávea e no Estação Botafogo". Em sua análise, "o melhor resultado de São Paulo deve-se a uma crítica bem mais generosa que no Rio de Janeiro", e lamenta que "não tenha funcionado no circuito comercial".

Perguntei a que se deve essa mudança de perfil de "Cine Holliúdy" no Sudeste. A resposta veio com novas revelações. "Como disse o Paulo Sérgio Almeida (diretor do Filme B), no O Globo, ´Cine Holliúdy´ foi um lançamento experimental e, como tal, apresenta um balanço de muitos acertos e alguns erros", destaca. "Tenho certeza que abrimos um novo caminho para o lançamento de produções regionais competitivas e os próximos serão aprimorados. Aprendi muito com nesse processo", afirma.

Mudar a estratégia

Wainer explica que sabia dos riscos reservados ao lançamento de "Cine Holliudy" em uma região culturalmente diferente do Norte-Nordeste. "Ia ser uma luta muito dura". E, humilde, reconhece ter cometido um erro na estratégia de lançamento. "Para ser competitivo no circuito comercial do Sudeste é preciso fazer um alto investimento em mídia e promoção, recursos estes que o filme não dispunha. Também perdi o ´timing´ para o lançamento no Sudeste, por razões que não vêm ao caso expor aqui - mas sou consciente que devíamos tê-lo lançado no mês de outubro, quando as notícias sobre o sucesso nordestino ainda estavam quentes".

Wainer revela que irá, assim, mudar a estratégia para o seu lançamento na região Sul - Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. "Como o filme se provou capaz de mobilizar o espectador ´cult´, vamos marcar o filme neste circuito. O filme tem resultados que justificam a continuidade de sua distribuição nas cidades ainda inéditas. Vamos focar no circuito ´cult´, mas sem desperdiçar nenhuma oportunidade nas salas comerciais".

"Temos vivido uma grande experiência de mercado com ´Cine Holliúdy´", explica Halder, corroborando com Wainer. "O Brasil é enorme e tem muito ainda a aprender sobre mercado - ´vivo´ e ´volátil´ - cinematográfico. Tudo neste lançamento é experimental, e estamos avaliando cada resultado", finaliza Halder.

Bruno Wainer revela, ainda, um objetivo: "Creio que o filme conseguirá chegar a contabilizar por volta dos 600 mil ingressos, número que considero extraordinário". E revela: "Afinal, a minha previsão inicial era a de apenas 50 mil ingressos no total!".

PEDRO MARTINS FREIRE
CRÍTICO DE CINEMA



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